Lá no fim dos anos 90, quando eu tinha uns 16 anos, consegui estágio em uma metalúrgica da minha cidade. Uma empresa em crescimento franco, muito disputada.

Um tio me contou da vaga, eu fui até lá e fiz a entrevista com duas pessoas, que depois fui descobrir serem marido e mulher (e meus futuros superiores na empresa). E este tio, pelo bom relacionamento, deu boas referências de mim aos dois.

Ela, gerente do RH. Ele, diretor do Departamento de Controle de Qualidade. Eu seria o estagiário entre os dois departamentos. E peguei a vaga.

Eu já tive várias lições de vida, nos muitos empregos que tive. Tive “chefes” que valeram por cursos superiores inteiros. E este diretor, um paranaense magrinho chamado Sérgio, foi um deles.

Ele foi um dos responsáveis pela certificação ISO9001 da empresa (que era um passo fundamental, naquela época), e tinha excelentes exemplos pra explicar como funcionava um sistema de “qualidade total”, que acabaram por me servir pra muitas outras coisas na vida.

Muita conversa, pouca solução

Hoje, lendo algumas matérias em blogs e jornais, eu me deparei (de novo) com mais uma briga (igual as de sempre) na internet. Você já deve ter visto, né?

Um dia é sobre a redução da maioridade penal, outro é sobre a população carcerária, outro sobre alguma tragédia, política, adoção, doações ou até sobre a redução populacional do chimpanzé da Namíbia. Tanto faz.

E isso me lembrou de vários outros problemas da sociedade (e de várias outras discussões, claro). O caso é sempre parecido: de um lado, quem dá prioridade total ao assunto, defendendo com unhas e dentes. De outro, quem acha que existem outras prioridades no mundo, atacando a prioridade alheia.

Entendeu o ponto em comum entre tudo isso? Eu entendi, lembrando de uma das lições que eu aprendi com o Sérgio, que me vale muito para o atual momento.

Pra me explicar como funcionava o sistema de qualidade total (a ISO9001), no caso de uma “não-conformidade” (um nome técnico pra “problema”), ele me contou o seguinte caso:

– Imagina que o João caiu, aqui no corredor. Caiu, quebrou o pé. O que fazemos?
– Devemos analisar qual foi a causa da queda do João! (eu, querendo mostrar competência)
– Não seria mais certo levantar o João do chão, primeiro, e levar ele para o hospital??
– É.. não pensei nisso.
– Depois a gente analisa que ele pode ter escorregado no chão molhado, descobrir que se tratava de uma goteira e montar um sistema preventivo para não termos mais goteiras, com análises periódicas do telhado. Mas primeiro, LEVANTA O COITADO DO JOÃO. Que tal?

Pois é… em duas frases, o Sérgio me ensinou uma coisa muito importante: um problema de cada vez. Ele dava essas lições (de vida, disfarçadas de lições de gestão) com um sorrisinho leve naquele cavanhaque e a mão no ombro, bem no estilo “brother”.

E o que isso tem a ver com a redução da maioridade penal, com os chimpanzés da Namíbia ou com qualquer outro problema social?

No fim das contas

A maioria das discussões acaba sem solução, por querer buscar respostas mirabolantes e resolver tudo de uma vez só.

Eu vi hoje, entre alguns “amigos” que discutiam, a falta justamente deste senso de prioridade. E você já deve ter visto também.

Experimenta aí, procurar no seu facebook, alguém buscando a solução para, por exemplo, os cães e gatos de rua.
Aposto que você vai achar argumentos como “e as crianças de rua?”. Ou “e a roubalheira em Brasília?”. E por aí vai.

Fica lançado o desafio: seja em casa, no trabalho ou na política, que tal um problema de cada vez?

Um abraço e nos vemos em breve!